O Alquimista do Sabor – Chef Fabrício Lemos

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GASTRONOMIA
MAIO 30.2016
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Gabriella Negromonte e Chef Fabricio Lemos

 

Marcamos uma entrevista numa tarde de sexta no restaurante Amado, onde Fabricio comandava não apenas a cozinha, mas onde também revolucionou a maneira de gerir e atender de um dos restaurantes de maior renome da Bahia e do Brasil.

Mas na tarde anterior à entrevista, por coincidência, nos encontramos no aniversário de um amigo em comum. Eu meio que não resisti e comecei a entrevista ali mesmo, já que ele estava acompanhado de sua amada e futura sócia Lisiane Arouca, do seu restaurante Origem.

Era para ser uma entrevista e fui cheia de perguntas, mas ele foi respondendo uma a uma, narrando a sua saga, sem mesmo eu precisar lhe questionar.

Fabricio tem uma daquelas histórias que gostamos de lembrar quando estamos passando por dificuldades na vida. Como ele mesmo diz, “nada foi fácil, nada caiu do céu”. Tudo o que ele conseguiu foi por sua árdua e diária luta e por acreditar no seu potencial e nos seus sonhos.

Garoto de classe média, nascido no Bonfim, filho de engenheiro civil e de coordenadora de escola. Teve educação militar rígida e, foi no acaso, na loteria, literalmente, que sua vida tomaria outro rumo.

Não, ele não ganhou milhões na loteria, mas ganhou a chave da virada do seu destino. Seu irmão mais velho, que morou um período nos EUA, se inscreveu num programa para conseguir o green card e foi sorteado. Depois de um longo processo, seu pai foi aos EUA levar os documentos exigidos pelo governo americano.

Fabricio e seu outro irmão foram avisados que precisariam se apresentar nos EUA em um curtíssimo período de tempo e eles não tinham dinheiro para isso. Conseguiram que uma tia pagasse a passagem no cartão dela, mas sua mãe teria que abrir mão do seu green card pela falta de recursos financeiros. E então, numa madrugada, Fabricio e seu outro irmão tiveram que correr para os EUA para concretizar o processo, mas mal sabia ele que sua vida nunca mais seria a mesma.

Ele começava ali sua trajetória de muito sofrimento, muito trabalho – com apenas mil dólares no bolso e 17 anos de idade. Uma trajetória que resultaria numa história de sucesso.

Ele experienciou de tudo. Viveu na casa de um psicótico nicaraguense do exército logo quando chegou nos EUA, mas com a ajuda de uma amiga da Bahia conseguiu seu primeiro trabalho, onde começaria a trabalhar em uma cozinha profissional. Mas esse não seria seu primeiro contato com a cozinha: Fabricio vem de uma família de cozinheiras e a necessidade fez que ele tivesse esse primeiro contato. Sua mãe tinha que trabalhar de dia e de noite, e desde cedo ele aprendeu a se virar na cozinha, improvisando, criando e aprendendo a gostar de cozinhar.

Mas de volta ao seu primeiro trabalho, lugar onde começa sua trajetória como chefe – mas claro que como um estrangeiro recém-chegado aos EUA, que mal falava a língua, não era como chef que ele havia de começar. Ele passou dois anos recolhendo lixo e lavando pratos e, durante seu tempo livre, aprendia a função de cozinhar. Porque quem tem fome de vencer faz isso.

Certo dia, o responsável pelas massas faltou e ele assumiu o setor – foi ai que esse garoto que sonhava em seguir a carreira militar começar a trilhar o seu destino. Essa foi a sua oportunidade de mostrar que tinha talento: ele deixou de ser o cara do lixo, sempre ignorado pelos colegas, para se tornar um Chef de Cozinha.

Foram cinco anos nesse restaurante. O garoto que começou lavando pratos saiu de lá como supervisor e braço direito do dono. Ele sentia que o ciclo havia fechado após esse período e estava na hora de dar o próximo passo que seria uma formação técnica.

No Google ele achou o curso da “Le Cordon Bleu” e, nessa mesma época ele conheceu Augusto Soledade, um dançarino, coreógrafo dono da Brasil Dance Theatre. Os dois se conheceram numa sexta-feira, em um carrinho de acarajé onde os baianos se reuniam em Miami para matar as saudades de casa. Augusto apadrinhou Fabricio e se tornou quase um pai para ele, o estimulou e o guiou para conseguir sua formação.

O curso de culinária custava cinquenta mil dólares. Uma parte ele conseguiu com um empréstimo do governo e a outra parte por empréstimo pessoal. O período de estudos duraria dois anos e meio, sendo seis horas por dia. Mas ele precisava se manter e pagar a dívida, então depois da escola trabalhava em outro restaurante.

A escola era dura e rígida, mas ele conseguiu se formar com honras por suas notas e por seu trabalho exemplar. Do Cordon Bleu, ele saiu direto para o Ritz Carlton, onde ele queria trabalhar por acreditar que este oferecia um número maior de possibilidades de crescimento. Mas ele ainda não podia fazer estágio porque precisava se manter e pagar sua dívida.

Ele bateu à porta do Ritz e, como ele mesmo fala “nada foi fácil para ele e não havia de ser desta vez”. Ele queria ter começado como Chef, tinha formação para isso, mas o que eles ofereceram foi o trabalho como terceiro cozinheiro.

Ele diz que foi aí que ele se formou como Chef de verdade. Ele foi subindo a escadinha da hierarquia até chegar ao cargo de Chef. Passou por hotéis de renome, como o Ritz Carlton, Key Biscayne, Coconut Grove e Amelia Island. Em cada deles um adquiriu uma know-how diverso. Mas foi numa hamburgueria que ninguém queria trabalhar porque fazia muito calor, a cozinha era externa, não havia glamour e se trabalhava comendo carvão (a finalização do hambúrguer era no carvão), que ele começou a colocar em prática seu conhecimento com criatividade. Ele revolucionou a hamburgueria com suas criações audaciosas, como o hambúrguer de Kobe Beef com Fois Gras e geleia de uva; o hambúrguer de dourado fresco (Mahi-Mahi); o hambúrguer de siri, etc. E foi ai que ele ganhou o titulo de Chef. Ele lotava a casa com suas criações!

Sua última experiência nos EUA como Chef foi na Amelia Island, no restaurante contemporâneo Salt, um dos poucos ainda no formato “Fine Dine” do grupo Ritz. Seu irmão escreveu para o Planeta Brasil – programa da Globo Internacional que fala sobre imigrantes que fazem sucesso fora do Brasil – contando a história de Fabricio.

Fabricio sempre teve vontade de voltar para o Brasil, era aqui que ele queria fazer sucesso. O Brasil sempre esteve presente nos sabores das suas criações e ser reconhecido por seu trabalho na sua terra natal era seu grande objetivo.

Ele tentou ser Chef em alguns restaurantes em Salvador enquanto ainda estava nos EUA, mas acreditem, mesmo com toda a sua formação, eles ignoraram seu talento.

No Salt passou um ano. Foram oito anos na cadeia Ritz Carlton e treze anos nos EUA. Era hora de retornar para o Brasil. Ele vendeu tudo o que tinha e voltou para casa.

Seu primeiro trabalho em Salvador foi no “Mistura”. Ele começou refinando o menu e o sucesso veio logo em seguida, mas confessa tristemente que nunca foi reconhecido como Chef, apesar do sucesso alcançado no restaurante.

Fabricio queria reconhecimento, seu interesse nunca foi financeiro – e ele viu essa oportunidade no Restaurante Al Mare. Eles deram carta branca a Fabricio, acreditaram e apostaram no talento dele. Ele ousou e revolucionou por acreditar no produto fresco, feito na hora e na sua apresentação sofisticada, sempre levando sua marca registrada: a alquimia de sabores. O restaurante foi eleito por três vezes o melhor restaurante de Salvador pela revista “Comer & Beber”, da Veja, enquanto tinham Fabricio como seu Chef. Bateram o record de faturamento de quase um milhão por mês e a mesma revista o premiou como Chef do Ano em 2014.

Foi numa viagem com Edinho Engel (Chef e Proprietário do Amado) que surgiu o convite para Fabricio assumir o Amado. Ele pensava que encontraria uma Ferrari pela frente e, mais uma vez, se deparou com inúmeras dificuldades, precisando colocar a casa em ordem. Ele aplicou seu conhecimento e técnica de gestão, além de optar por produtos sazonais, ousando em mudar um menu que já existia há muito tempo. De 65 pratos, o restaurante passou a oferecer 30, dos quais ele mudava constantemente. Sofreu resistência, mas não abriu mão dessa mudança. A ideia é sempre surpreender os clientes. Ele passou um bom tempo organizando a casa, mas só agora, após um ano e alguns meses estruturando o restaurante, que ele haveria de colher os frutos maiores do seu trabalho, ele resolve abrir seu próprio restaurante. Atualmente Fabricio também está alçando vôo para partir numa viagem em direção ao seu sonho maior: ter seu próprio restaurante.

Nesse momento eu o questiono:

– Mas Fabricio, depois de tanto trabalho você não vai ficar para colher os frutos maiores?

Ele me responde:

– Eu nunca almejei o dinheiro, minha vinda para cá foi projetada, queria ter reconhecimento e visibilidade nacional. Ganhamos o melhor restaurante do nordeste em 2015. Ganhei o prêmio Chef Revelação do Brasil pela Revista Prazeres da Mesa, também em 2015. Ganhei o Prêmio por Alex Atala, em São Paulo. E agora que esse reconhecimento nacional aconteceu está na hora de abrir meu próprio negócio. Eu ainda acredito que o meu papel é de alavancar a gastronomia baiana formando profissionais. (Edinho sempre soube desse objetivo de Fabricio abrir seu próprio restaurante e reassumiu o Amado em junho de 2016).

E ele tem feito isso. Ele tem mudado a estrutura de vários restaurantes na Bahia através da sua consultoria e técnica em gestão de restaurantes. Ele vê isso como uma missão, será o seu legado!

E falando do seu restaurante, precisamos falar de Lisiane Arouca, sua futura sócia nessa empreitada. Fabricio conheceu Lisiane há três anos, em um curso de culinária. Ela estava recém-separada e com duas filhas. Eles ficaram amigos, mas não demorou muito para se envolverem. Lisiane, também Chef, especialista em doces, fazia parte da equipe 4 Chefs.

E foi buscando um novo ateliê para ela que eles encontram um lugar para criar não só um ateliê, mas um restaurante. Serão 50m3 de salão mais a área de serviço. O desenho da cozinha é de Fabricio, mais um de seus talentos!

“Origem”, esse é o nome do restaurante desse grande batalhador, um Chef que tenta revolucionar a culinária com produtos simples e sazonais. Origem remete à busca a suas origens, a simplicidade dos elementos. Mas não espere encontrar um escondidinho lá. Ele usará sim todos os produtos típicos da sua terra, mas de outra forma. No vídeo feito pelo Planeta Brasil, eles o chamam de alquimista culinário. E é bem por aí, ele cria pratos sofisticados, principalmente inusitados, com elementos simples.

Além de ser um grande Chef, ele é, antes de tudo, um grande homem, um grande guerreiro. Seu restaurante terá papel importante no treinamento e aperfeiçoamento de profissionais do ramo. Sorte daquele que puder absorver um pouco do seu conhecimento. E que sua técnica se dissemine e que venha assim uma nova era nos restaurantes baianos. Recordem-se do que estou falando, um dia teremos Fabricio como um dos revolucionários da cozinha baiana e brasileira. E que assim seja!

Que o Origem nos enfeitice com seus sabores e que tragam ainda mais prosperidade para esses dois grandes Chefs, porque ele são merecedores!

Eu prevejo sucesso!

  • Fabricio e Lisiane abriram o Restaurante Origem no dia 28 de julho de 2016 com sucesso e lista de reservas esgotadas por semanas!
  • Vale a pena conferir essa aventura gastronômica!!

Foto: Gabriella Negromonte

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Gaby Negromonte

Autor: Gaby Negromonte

Mãe, Estilista, Stylist, Consultora Criativa, Consultora de Moda, Consultora de Imagem, Técnica em Ciência Têxtil, Empresária, Turismóloga, Globe Trotter, Poliglota e Curiosa…

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