See now, buy now – Entenda o novo sistema da moda do Brasil

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MODA
ABRIL 25.2016

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A última estação teve um marco histórico na moda brasileira. A desqualificação das coleções considerando as estações do ano e ainda a inclusão do sistema de “See now, buy now”.

Antes nós tínhamos um processo de venda diferenciado. Os desfiles aconteciam, showrooms eram abertos para a venda das roupas, e a entrega das mesmas aconteciam meses depois. Tudo isso levava em torno de seis meses.

Pode-se afirmar que era um processo arriscado para os estilistas, já que as vendas podiam acontecer ou não. Claro, é sempre uma aposta! Mas acredita-se que vai dar certo e segue-se adiante.

Vem então a segunda parte da dificuldade: será que venderemos o suficiente para pagar os custos?! Não existiam garantias que as confecções seriam pagas pelas vendas, pois se dava um prazo para cancelamento da compra. Porém, se o estilista/confecção quisesse criar uma boa reputação no mercado, apostava-se e os pedidos eram mandados para produção, a fim de que a entrega fosse feita no prazo. E ai vem a outra parte mais complicada: quando o pedido é entregue e o comprador não paga.

Quando se cancela um pedido, ou pior, quando um pedido pronto não é pago, lá se vai um montão de investimento para o lixo. Tecidos, aviamentos, empregados, modelagens, custo fixo, produtores terceirizados, tudo pré-pago pelo estilista/confecção. Esse processo era injusto e vinha se arrastando não apenas com a inadimplência dos compradores, mas também ocasionando o fechamento de muitas confecções. No mercado da moda brasileira, a inadimplência terminou acontecendo com muita frequência nos últimos anos.

Era assim que funcionava o sistema arriscado do mercado de moda do Brasil. Mas, a partir dessa estação, a moda começa a funcionar no novo sistema: “See Now, Buy Now”. Estava na hora dos estilistas serem pagos com mais rapidez para que pudessem sobreviver!

E nada mais justo que sobreviver! Vamos por parte: todos que ainda estão de pé na moda brasileira são grandes magazines que têm um grande giro de vendas, ou têm um bom investidor, ou são guerreiros e apaixonados pelo o que fazem.

Há anos a Europa trabalha com o sistema de pre-order, isto é, para aceitar um pedido, o comprador precisa pagar uma parte da compra. Esse é o certo e justo! Mas no Brasil isso parecia que nunca iria acontecer. Em algum momento esse sistema havia de implodir.

Com a velocidade de informação, tudo fica démodé (fora de moda) muito rápido. Além disso, cópias são mais fáceis de serem feitas com os meses de espera para entrega aos pontos de venda. Com esse tempo, alguém já havia visto o modelo, já havia o copiado e já está com o cliente final. A Zara é um grande exemplo de cópia veloz. Já vi muitos desfiles acontecerem e, no dia seguinte, a Zara já oferecia cópias do desfile a um valor acessível. Como ela conseguia isso?! Bom, isso é um segredo guardado a sete chaves. Só sabemos que isso afetou e muito a indústria do luxo e veio-se a necessidade de repensar a forma de venda mundial.

As mídias sociais também proporcionam essa velocidade de disseminação de informação e tendências. Então, finalmente, a indústria da moda brasileira resolveu buscar alternativas, e achei a escolhida bem ousada! Com certeza, muitas confecções ainda não puderam atender essa velocidade de vendas, contudo isso será feito gradativamente. O certo seria rapidamente, mas vejam bem, reparem no histórico acima.

Apesar de tudo, considero essa mudança um passo para o futuro e para o avanço da indústria da moda brasileira. E embora os brasileiros ainda possuam uma certa resistência à compra online, esta tem conquistado seu espaço no mercado. E este espaço cresce rapidamente. Isso é bom! Você vê a tendência, corre para o site e paga para receber em casa! Nada mais prático!

Ainda existe uma aposta, claro. Uma produção é feita na tentativa de vender-se principalmente para quem possui loja física e E-commerce. Mas com esse novo sistema e com a ajuda das mídias sociais, esse processo pode ser uma estrutura de sucesso para todos: indústria e cliente final.

Essa velocidade também mudou o formato de como as coleções são apresentadas. No Brasil não mais se rotulará as coleções por estações do ano. Bom, isso eu já não sei se funcionaria em países com estações do ano muito definidas como no caso da Europa, mas algumas marcas por lá já anunciaram que vão aderir como a Burberry. Já aqui, um país quase todo de clima tropical, isso pode ser uma opção. Mesmo assim, lembro que temos estações bem definidas de verão e inverno no centro-oeste, sul e sudeste do país. E ai?! Vamos ver como vai funcionar isso!

Quem deve sofrer mais com essa mudança são as lojas físicas e multimarcas. Principalmente as multimarcas brasileiras, que precisam capitalizar-se ao longo de seis meses para recomeçar suas compras. Seria justo implantar um novo sistema para multimarcas e o pre-order poderia ser um deles.

Não acredito que essa mudança será fácil ou rápida e, como já mencionei acima, outras áreas serão afetadas. Contudo uma mudança já era necessária, e agora com essa forte crise na indústria, ela tornou-se essencial!

Continuo torcendo pelo sucesso desse novo sistema e uma melhora na indústria da moda! Mas lembro que a melhora do sistema depende também de outros fatores, como mão-de-obra, produtores e matéria-prima.

Nossa mão de obra é despreparada – não existe incentivo do governo para qualificação de costureiras, modelistas e técnicas de corte e costura. Essa mão de obra está cada vez mais escassa, e se queremos competir com os preços do exterior precisamos ter produtores cada vez mais eficientes, que produzam aqui dentro do Brasil com um preço competitivo.

E vou além, a indústria de matéria-prima brasileira é boa, mas os preços são altos. A China e outros países, produtores de tecidos e afins, produzem com maior qualidade e a um preço inferior. E como competir com isso?! Precisamos achar uma saída!

Que essa seja a primeira de muitas mudanças que a indústria da moda brasileira precisa. Falo isso como empresária do ramo de confecção e amante da moda!! Antes de esse novo sistema ser lançado, eu e minha sócia (somos donas de duas marcas) optamos por fechar nossa loja física e apostar no E-commerce. Eu acredito muito nesse novo nicho de mercado e estou torcendo – enquanto empresária e consumidora de moda – para que venha uma nova era de sucesso para a indústria da moda brasileira!

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Gaby Negromonte

Autor: Gaby Negromonte

Mãe, Estilista, Stylist, Consultora Criativa, Consultora de Moda, Consultora de Imagem, Técnica em Ciência Têxtil, Empresária, Turismóloga, Globe Trotter, Poliglota e Curiosa…

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